quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O parto da Rafaela e a gravidez anterior...

No dia 26 de Dezembro de 2007 tinha agendado o meu segundo CTG. Nesse dia fazia 38 semanas de gestação e na minha cabeça só existia uma ideia "Hoje não vou sair do Hospital sem a minha filha nos braços!".

Eram 8 da manhã quando eu e o meu marido entrámos de sorriso rasgado e nervoso miudinho no gabinete da Dra. Maria do Carmo Serra na Cuf Descobertas. Eu olhei para ela e disse "“Dra. é hoje!! Já não me vou embora, tenho as malas no carro e é hoje que vou ter a minha menina!”. Ela disse para eu ter calma pois compreendia perfeitamente o meu estado de ansiedade. Ela sabia melhor que ninguém que eu só sonhava em ter a minha menina nos braços (ela acompanhou-me durante a minha primeira gravidez e sabia o pesadelo pelo qual eu tinha passado). Mas no seu profissionalismo extremo e na sua voz doce e compreensiva disse para eu ter calma pois as coisas não funcionam assim e ela tinha que ver primeiro o estado do meu utero.

FELIZMENTE tinha 2 DEDOS DE DILATAÇÃO!! Já ninguém me ia arrancar do hospital!! :-)))

Fomos tratar do meu internamento e fiquei comodamente instalada num quarto. Eu estava doida de alegria!!! Falava, cantava, despi-me e pedi ao meu marido para tirar as últimas fotos à minha linda barriga de grávida. Em seguida fui à casa de banho colocar um pouco de maquilhagem para receber elegantemente a minha filha!!! eh eh eh! coisas de mulher!

Ligaram-me ao CTG e a dilatação continuava lentamente. A minha bebé estava numa agitação constante!!! A minha barriga não parava! Ela sempre foi uma bebé muito mexida!!! A minha barriga até dava pulos! Quando as malditas contracções (que já não eram novidade para mim) começaram a apertar pedi então a epidural que me foi ministrada com muito carinho pelo anestesista. Às 19h30 atingi os 10 dedos de dilatação e já sentia a cabeça da minha menina no canal vaginal. Lembro-me de colocar a mãe e sentir a sua cabecinha.

Portanto até aqui tudo bem. Dilatei normalmente, a bebé desceu, encaixou e estava pronta para sair. O que ninguém estava à espera é que a minha menina estivesse de barriga para cima e a minha obstetra não tinha espaço para meter as mãos e dar-lhe a volta. A enfermeira queria recorrer aos fórceps mas a minha obstetra recusou pois eu nem tinha espaço para encaixar os fórceps e ela não me queria magoar. Recorreu à ventosa e lembro-me de ela dizer “quero ver se não tenho que a cortar. Vou fazer os possíveis para evitar”. Mas as coisas complicaram-se e a bebé continuava encalhada e não saia. Partiram 5 ou 6 ventosas e nada…a enfermeira carregava-se em cima de mim e nada… força e mais força e nada.
"FORÇA RAFAELA" dizia eu enquanto atingia o limite das minhas forças, forças que nunca imaginei ter. Mas sei que temi desmaiar pois já estava a ter dificuldade em me focar. Fiz tanta, tanta força. A minha obstetra teve então que me cortar até conseguir agarrar na cabeça da bebé com as próprias mãos para a tirar. Era grande, gorducha e já não podia ficar mais tempo encalhada no canal vaginal. Era preciso agir rapidamente. E assim foi.

Nasceu às 20h04 com 3.320 Kg e 49 cm.

O meu marido foi um homem super corajoso, um grande companheiro e acabou por ver muito mais do que ele gostaria. Acabou por se sentir mal e caiu para o chão quando viu a nossa menina sair roxa, gelada, sem chorar. Pensou o pior. A Rafaela estava em hipotermia por ter estado tanto tempo entalada no canal vaginal. A equipa médica 5 estrelas da Cuf Descobertas tratou dela num instante, colocaram-na em cima de mim por escassos segundos e de seguida levaram-na para uma incubadora para ela aquecer. O meu marido ficou com ela e eu fiquei na sala a ser toda cosida por dentro e por fora. A minha obstetra teve que me cortar bastante para conseguir tirar a bebé com as próprias mãos. Se não fosse a sua sábia experiência nem quero pensar o que podia ter acontecido...Fui toda cosida e ainda tive uma pequena hemorragia no interior da vagina. Fui para o recobro e tive que ser aquecida pois estava gelada, tremia que nem varas verdes. A minha menina continuava longe de mim, algures numa incubadora ao pé do papá a recuperar também a temperatura corporal.

Fui para o quarto e a minha menina continuava longe a aquecer. Ela nasceu às 20h04 e só por volta da meia-noite é que a levaram para o pé de mim. LINDA!...já estava com umas bonitas rosas de cor e uns olhos lindos e enormes a olharem para mim. Passei a noite em branco a olhar para ela e apesar de todo este sofrimento sentia-me a mulher mais feliz do universo. Encostei o seu berço à minha cama e fiquei a noite toda hipnotisada, deslumbrada a olhar para ela. " Meu Deus, que ser maravilhoso eu pus neste mundo, é tão querida, tão linda!". Ela adormeceu e eu tirei-lhe três fotos e fiz dois vídeos com a minha máquina fotográfica. Mas nunca lhe toquei, fiquei só a olhar para ela e a aconchegar-lhe a roupinha. Ela sofreu tanto para sair de dentro de mim que eu nem lhe queria tocar para não a magoar ou perturbar. Até tinha na cabecinha a marca da ventosa, coitadinha. Mas fomos umas valentes!

E nunca mais a larguei. As duas no quarto em contemplação total! Custava-me horrores a andar mas lá ia eu com a minha cria, atrás das enfermeiras na hora da banhoca ou da vacinação.

Mas o pós parto foi um horror. Tive alta e fui para casa. E depois estive duas semanas de cama sem me conseguir sentar nem por de pé… só me punha de pé para lhe dar banho ou tratar dela. Dava de mamar deitada e cheguei a ter feridas nos cotovelos por estar tanto tempo na mesma posição! Só ao fim de um mês me conseguia sentar naquelas almofadas em forma de donut. Tive que tomar antibióticos e analgésicos para evitar qualquer infecção e suportar melhor as dores…e cada vez que ia à casa de banho até as lágrimas me escorriam pela cara. Parece que me ia abrir toda por dentro… pavoroso! Para ajudar fiquei com uma crise de hemorróidas por causa da força extrema que fiz no trabalho de parto. Um pesadelo. A minha obstetra diz que nunca mais me faz um parto natural e eu estou de pleno acordo. Podia ter evitado tanto sofrimento. Só hoje, passado um ano me sinto uma mulher normal, sem dores e sem desconfortos internos.

Mas tenho um marido maravilhoso e compreensivo e nunca fomos tão felizes. Todo este sofrimento foi vivido sempre com um sorriso nos lábios pois eu já tinha estado grávida anteriormente e tinha perdido os bebés e corrido risco de vida… por isso, quando engravidei da minha menina tornei-me uma super mulher. Sofri mas tinha nos meus braços a recompensa: uma filha linda que adoro acima de tudo. Sofri mas trouxe VIDA para casa. Tive um pós parto horrivel mas a alegria de ter a minha filha ao pé de mim fez-me superar tudo sempre com um sorriso e uma alegria inexplicável.

Em suma, hoje em dia há a falsa ideia que todos os partos naturais são um mar de rosas e isso não é verdade. Não se pode nem deve generalizar. Há mulheres e mulheres, há partos e partos, há cesarianas e cesarianas. A minha sobrinha nasceu de cesariana, a minha cunhada não sofreu nada e passados minutos tinha a bebé ao pé dela no quarto. No meu caso passei horas sem a minha filha e ficámos ambas em sofrimento desnecessáriamente. Eu tinha medo de fazer uma cesariana mas acabei por me meter num pesadelo bem pior! E francamente não me sinto mais mulher por ter tido um parto natural e sofrido horrores.

Eu tinha muito receio de fazer uma cesariana porque eu já tinha tido um parto natural anteriormente. Nesse parto perdi os meus dois bebés. Foi uma gravidez medonha. Sou uma pessoa super saudável, super cuidadosa com a saúde e quando planeei engravidar nunca pensei que isto me ia acontecer. Engravidei num instante e de gémeos. Não tenho casos de gémeos na família e nunca pensei que tal coisa me pudesse acontecer. Foi uma gravidez horrível. Fiquei de baixa logo no início pois na primeira ecografia com poucas semanas o médico avisou-me que estávamos perante uma gravidez de alto risco.

Eram gémeos verdadeiros e só tinha uma placenta. A placenta única foi fatal pois eles mataram-se um ao outro. Ocorreram as chamadas transferências feto-fetais. Um começou a ser mais forte e começou a canalizar todo o alimento e oxigénio para si. O outro foi enfraquecendo e não aguentou. O gémeo que sobreviveu ficou em sofrimento total pois estava lado a lado com um corpo em decomposição e a placenta única serviu de canal para passar tudo e mais alguma coisa de um corpo para o outro.

Tudo isto se passou dentro da minha barriga. Eu estava super mal, tinha uma barriga gigante, umas dores insuportáveis dentro de mim. Estive internada num sofrimento físico e psicológico brutais. Tinha um bebé morto dentro de mim e outro em sofrimento que ainda podia ser salvo mas com poucas hipóteses. Eu corria risco de vida pois se algo passasse para a minha corrente sanguínea era o meu fim. Estava toda ligada, a levar drogas e mais drogas para evitar infecções ou alguma septicemia. Os médicos alertavam-me diariamente para os riscos que eu corria e eu só me lembro de implorar a Deus que pusesse fim à minha gravidez. Tinha um bebé morto, o outro não estava bem e eu corria risco de vida. Com 30 anos tinha uma vida toda pela frente e muita facilidade em engravidar.

Eu só queria VIVER e sair daquele pesadelo.Felizmente Deus ouviu as minhas palavras e entrei espontaneamente em trabalho de parto. Um parto natural horrível, medonho….felizmente não fui cortada pois os bebés eram pequenos e saíram sem episiotomia. Mas fui toda raspada pois a placenta era enorme e saiu aos bocados. Um momento que gostava de apagar da minha memória para sempre. Sobrevivi mas nunca mais fui a mesma pessoa. Passei a ver a vida com outros olhos. Ia enlouquecendo. Sentia uma mistura de sentimentos que me atormentavam diariamente.

Passei por momentos que me marcaram profundamente.
Depois do parto colocaram-me no piso das puerperas onde ouvia as outras mães com os seus bébés... e eu ali, sózinha num quarto, sem barriga, sem bebés....
E a imbecil da psicóloga do Hospital S. Francisco Xavier ainda foi ter comigo de sorriso rasgado nos lábios enquanto me perguntava "Ahh já teve os seus bebés!".... que falta de profissionalismo...nem se deu ao cuidado de ler o meu processo antes de entrar no quarto.
Esta imbecil todos os dias ia ter comigo e sabia perfeitamente o que se passava... e todos os dias eu recusava a sua ajuda pois eu não estava maluca e não precisava da ajuda desta idiota. Eu enfiada numa cama cheia de dores, de coração despedaçado e esta tonta (para não lhe chamar outra coisa) ainda me foi perguntar se já tinha tido os meus bebés. E pior, ainda teve a lata de atender uma chamada telefónica à minha frente onde falava toda feliz das suas férias....
E nunca mais me esqueço daquela médica que me respondeu friamente "no ano passado morreu uma mulher numa situação semelhante à sua" quando lhe perguntei aterrorizada se eu podia morrer tendo em conta os riscos que os médicos me descreviam. Vim a saber no dia seguinte que esta médica era estagiária.
E nunca mais me esqueço do dia em que tive alta e tive que percorrer todo aquele corredor até à saída. Um corredor imenso onde todas as mulheres estavam com os seus bebés porque me colocaram no quarto do fundo, o que me obrigava a "desfilar" até à porta para sair...e eu lavada em lágrimas, desfeita...

Como eu gostava de esquecer tudo isto.
A pilha de drogas que me deram durante uma semana....e não perceberam que eu estava há dias em trabalho de parto e que todas aquelas dores eram o meu corpo a querer expulsar tudo....e continuavam a dar-me drogas para uma infecção urinária que nem existia e as minhas veias já estavam a estoirar. Eu já nem conseguia comer pois sentia-me a rebentar.
Felizmente acabou por entrar um médico que se apercebeu do meu real estado e gritou furioso para a restante equipa pois eu estava a ser negligenciada, estava a servir de cobaia.
Eu estava em trabalho de parto há quase uma semana e ninguém ligava ao que eu dizia. Uma gravidez para esquecer, um parto para esquecer. Em suma, uma história muito triste....uma história que guardo no canto mais negro da minha alma.

FELIZMENTE, passados 4 meses estava grávida novamente. Pensava engravidar mais tarde mas mudei de ideias. Engravidar novamente era a única forma de superar o desgosto que me ia na alma. E quando fiz a primeira ecografia suspirei de alívio por não serem gémeos. Era só um feijãozinho, uma luzinha na minha vida e estava tudo bem. Esta gravidez correu lindamente mas foram 9 meses de muito nervosismo, ansiedade, medo… quando sentia qualquer coisa ficava logo apavorada e desatava a chorar. Enfim, fui uma grávida muito atormentada devido à experiência anterior. Estava desejosa de conhecer a minha menina e estava convicta que o parto natural era o melhor pois já tinha passado por um e já sabia como era. As cesarianas assustavam-me ainda mais.

Não penso ser mãe novamente....mas se um dia tiver mais filhos tenho uma certeza: Cesariana SIM!

E estou eternamente grata à Dra Maria do Carmo Serra por ter sido não só uma excelente profissional como também uma excelente amiga. Foi ela que meu deu forças para engravidar pela segunda vez... ela também passou por uma triste experiência na vida e sabe como estas situações deixam marcas profundas. Uma mulher nunca mais é a mesma. Passamos a ver a vida de outra forma. Passamos a dar valor ao que realmente tem valor e a aproveitar ao máximo todos os segundos de felicidade.

Desta vez eu e o meu marido já não fomos para casa sózinhos. Desta vez ia um terceiro elemento no ovinho do banco de trás! Uma menina linda, cheia de vida!

Só sabemos dar valor ao doce quando já provámos o amargo.

Nasceu a minha Luzinha!



Foi este o SMS que enviei do quarto da Cuf Descobertas a todos os familiares e amigos, horas depois da minha querida menina nascer:

Olá!! Sou a Rafaela :-)
Nasci hoje às 20h04 de parto natural com ventosa (não foi fácil mas já cá estou!)
Tenho 3.320kg sou linda e gorducha. A minha mãe está exausta mas muito feliz.
Bjinhos*