terça-feira, 28 de setembro de 2010

Adeus Paulinho

Estas foram as palavras que enviei ao Paulo após ler a sua triste carta de despedida. O Paulinho faria hoje 7 anos. Uma vida ceifada tão depressa...uma vida que ficou com tanto por viver.

"Depois de ler fiquei com um nó na garganta... se o amor por um filho nos dá toda a força do mundo, a verdade é que esse mesmo amor também nos pode matar.

Depois de tudo o que passei tenho a perfeita consciência que se algo acontecesse à minha filha eu já não teria forças para me erguer novamente e pediria a Deus que me levasse também consigo. Lidar com a perda dos meus bebés foi terrível.... mas lutar contra a perda de um filho que já cá anda neste mundo é algo que não consigo conceber. E a verdade é que há barreiras que nunca mais se conseguem ultrapassar.

Ainda hoje não consigo mexer nem olhar para o saco que coloquei no fundo da arrecadação com os sapinhos de peluche que o Paulo e toda a equipa me deram. Como lhe disse, não enlouqueci mas andei muito perto da loucura.

Bati no fundo e tenho a plena consciência do dia em que isso aconteceu. Já nem conseguia estar com crianças, não fui à festa de aniversário do meu afilhado, não fui à festa de aniversário do meu sobrinho... só pensava nos meus bebés e as lágrimas corriam-me pela cara sempre que via uma criança. Já nem consegui ler uma revista porque as revistas estão cheias de crianças... isolei-me de tudo e de todos... só o meu marido me confortava pois só ele sentia o tamanho da minha, da nossa dor. O meu marido, o meu pilar, o meu companheiro que lutou sempre ao meu lado.

Tentei refugiar-me no trabalho e manter a cabeça sempre ocupada. Não parava um segundo pois não queria ter tempo para pensar... fui-me desgastando em busca de algo que conseguisse acalmar a saudade, o vazio, a revolta...

E os dias iam passando e a minha dor não apaziguava.... a revolta aumentava e eu tinha que continuar a viver, a trabalhar, a lidar com a futilidade de certas pessoas, a ouvir as pessoas queixarem-se da vida e a preocuparem-se com coisas que não têm importância nenhuma. Tinha que lidar com a pergunta constante de quem não sabia o que tinha acontecido "Como estão os seus meninos?"...

Tinha que continuar a acordar de manhã e a enfrentar mais um dia... tinha que lidar com aquele vazio que me consumia a alma e me tirava a vontade de tudo. De dia os fantasmas atormentavam-me e à noite tinha pesadelos horriveis em que via os meus filhos em pleno sofrimento.

Bati no fundo. E nesse momento percebi que a única forma de conseguir acalmar a minha dor era engravidando novamente. O meu marido nem queria falar no assunto. Por ele já não tinhamos tido mais filhos. Ele teve muito medo de me perder pois eu corri risco de vida na primeira gravidez. Ele nem queria pensar numa nova batalha. Mas nós mulheres nascemos para dar vida, temos essa força dentro de nós que se sobrepõe a tudo.

E ele como grande Homem e companheiro deu-me todo o apoio. Eu precisava de sentir novamente VIDA dentro de mim. Tinha que ultrapassar essa barreira.

E quando engravidei a felicidade e a angustia tomaram conta de nós. Tinham passado apenas 4 meses após a perda dos gémeos. Era um risco para mim mas era uma LUZ depois das trevas. Só assim eu conseguiria continuar a viver... só assim a minha vida faria de novo sentido.

Foi uma gravidez saudável, correu muito bem mas o meu stress e a minha ansiedade eram constantes. Estava sempre com medo de perder tudo outra vez... bastava sentir algum desconforto e ficava em panico... não via o dia de ter a minha filha nos braços... de sair da maternidade com uma bebé ao colo, de trazer VIDA para dentro de casa.

E ainda hoje tomo metade de um comprimido antidepressivo para me manter calma e serena. A Rafaela trouxe LUZ à minha vida mas o medo da perda é uma constante. Todos os pais temem perder os filhos mas quando se passa por uma má experiência esse medo ainda é maior.

Posso viver muitos anos mas sei que a minha vida só fará sentido com a minha menina ao meu lado. Posso viver muito anos mas nunca mais esquecerei tudo o que passei. NÃO há um único dia em que não me lembre dos meus bebés (o Pedro e o Rafael).

Na altura percebi que muitas pessoas passam por situações semelhantes e que há pessoas que passam por situações piores ainda. Não é que isso me tenha confortado mas deu-me outra perspectiva da vida. Tentei arranjar formas de minimizar a minha dor...
Pensei que seria muito pior eles terem nascido e morrido passado algum tempo... a dor seria muito maior.... pensei que teria sido muito pior eles terem nascido deficientes ou com graves problemas de saúde visto ser uma gravidez "tipo euromilhões do azar" como disse o médico quando fui saber o resultado das autópsias. Uma gravidez de gémeos com apenas uma placenta....uma coisa rara com sérios riscos para mim e para eles...

Sei que eu poderia ter morrido. Nunca mais me esqueço na manhã que passei a chorar quando os médicos me disseram que eu poderia morrer... se Deus me deu a oportunidade de viver foi por alguma razão. Mas também cheguei a questionar a existência de Deus pois cheguei a um ponto em que nada explicava a minha revolta. A Paula morreu com eles e nasceu uma outra Paula, uma outra mulher. Nunca mais fui a mesma e dou um valor imenso à felicidade. Só sabemos apreciar o doce quando já provámos o amargo.

Vivo cada dia com uma satisfação imensa... mas também vivo atormentada por saber que tudo nesta vida tem um fim. Sei que nunca mais quero sentir aquele vazio.... não conseguiria viver.

Pois é querido Paulo, isto tudo para lhe dizer que cada um de nós vive as coisas à sua maneira. Há quem chore, há quem escreva, há quem se isole do mundo, há quem se remeta ao silêncio...cabe a cada um de nós perceber o que faz realmente sentido... cabe a cada um de nós decidir se queremos ficar no fundo ou se nos queremos erguer....cabe a cada um de nós perceber se temos força e vontade para continuar a viver... só nós podemos decidir o nosso futuro, a nossa vida.

Mas quero que saiba que sempre o admirei. Como director, como chefe, como amigo, como ser humano. Sei que tem um coração de ouro e dentro de si há de facto um Super Homem. O Paulinho sabe disso e tenho a certeza absoluta que ele quer ver o seu papá erguer-se de novo e ser o Super Homem que ele tanto amava e admirava."

Um grande beijo
Paula Veiga Claro

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O céu tem mais um anjinho

Ninguém neste mundo devia viver para assistir à morte de um filho. Conheci o Paulinho com dias de vida. Vi aquele bebé de caracóis loiros e de olhos grandes e meigos crescer. Mas se a vida é injusta a morte é mais ainda. E hoje de manhã quando atendi o telefone o meu coração gelou com a notícia. Estou arrasada. Se a morte de um adulto é triste, a morte de uma criança é absolutamente revoltante e devastadora.