segunda-feira, 14 de março de 2011

O peixinho Gorducho morreu :-(

O nosso Gorducho não era apenas um peixinho.
O nosso Gorducho já fazia parte do agregado familiar. Há dois anos que vivia no mini aquário que temos na cozinha.

Mas o Gorducho não andava bem. Ultimamente tinha adoptado uma forma estranha de estar na vida. Andava quase sempre de barriga para cima! Há meses que andava, ou melhor, que nadava assim. Eu e a Bonequinha fomos a uma loja de animais onde falámos com um entendido em bicharada. Diagnóstico: O Gorducho tinha uma bactéria.

Lá comprei o medicamento. Lá apliquei conforme posologia. Lá segui todos os passos que me indicaram. A Bonequinha acompanhou todo o processo e na hora dos tratamentos ela também me ajudava a colocar o medicamento na água.

O Gorducho ficou melhor e até lhe comprámos um amiguinho para lhe fazer companhia. Voltou à posição correcta, ou seja, voltou a nadar de barriga para baixo como todos os peixes frescos e saudáveis!!

Mas no fim de semana algo se passou. Desta vez começou a nadar de lado e eu percebi que o fim estava próximo. Tinha alguns dói-dóis nas barbatanas e a Bonequinha olhava para ele com pena e suspirava "Coitadinho do meu Gorducho, está doente outra vez".
De salientar que a minha filha tem uma paixão pelos animais inexplicável! Por ela tinhamos um Zoo aqui em casa.

Mas hoje o Gorducho não acordou. De manhã o papá disse-me que o peixe estava morto.
Próximo passo: o que dizer à nossa Bonequinha??

O papá queria dizer que ele tinha ido para o oceano. Mas eu achei que não era uma resposta correcta. Tenho lido muito sobre o assunto. Tenho pesquisado sobre as questões complicadas que surgem aos pais pois quero estar minimamente preparada para não vacilar com as perguntas que são cada vez mais complicadas... a morte é uma delas... e os entendidos dizem que não se deve esconder a verdade, deve-se contar o que aconteceu mas de uma forma ligeira e com um pouco de magia.

As crianças têm que ter a noção que tudo tem um fim. Assim começam a perceber mais facilmente os perigos inerentes a certas acções. Temos que ser claros e explicar que uma coisa é ficção e outra é a realidade. Se saltarmos da janela não voamos como as winx ou como o super homem... simplesmente morremos... acabou-se. Não devemos ser dramáticos mas devemos explicar as coisas de forma simples e em tom sério, carinhoso e natural para que percebam.

Então lá fui eu até ao quarto. Lá fui ter com a Bonequinha que estava deitada a fazer uma das suas birras matinais porque tem sono e não se quer levantar da cama. Fui ter com ela, acarinhei-a e disse-lhe: "Olha minha querida o Gorducho não resistiu aos dói-dóis. O Gorducho morreu".

Ela ficou a olhar para o vazio por uns segundos e desatou a chorar. "O meu Gorducho morreu?" dizia ela lavada em lágrimas. "Deixa-me ver mamã".

Lá fomos até à cozinha onde lhe mostrei o peixinho dentro de uma tacinha. Fiquei de coração partido com a atitude dela. Ela olhou para mim e disse "E agora mamã, ele vai para o lixo?".

Eu disse-lhe que não. E é aqui que entra a mentira necessária para dar uma certa magia a algo tão triste. "Ele não vai para o lixo minha querida. Ele agora vai para o céu, vai fazer uma longa viagem e depois transforma-se numa estrela".

Ela olhou para mim e disse uma coisa que me comoveu profundamente "Ele vai para o céu mamã? mas ele depois cai"

Expliquei-lhe que ele não ia cair porque ia ficar numa daquelas nuvens brancas e fofinhas e que depois se tranformava numa estrela que iria brilhar muito.

Ela continuava a chorar e mais uma vez tocou o meu coração ao dizer "Coitadinho do meu Gorducho, ele estava tão bem aqui na nossa casa e agora morreu". E lavada em lágrimas foi a correr para a janela, olhou para o céu e perguntou "Onde está o Gorducho mamã? Não estou a ver nada."

Enfim, para mim que sou um coração mole não foi um episódo fácil. Disse-lhe que era uma longa viagem e que ele ainda ia a caminho. Só à noite é que lá chegava e se transformava numa estrela. Fiquei deprimida e trite o resto do dia mas sem nunca o demonstrar.

E lá fomos até à escola. Falei a sós com a educadora e expliquei-lhe o que se tinha passado. Ela deu-me os parabéns pela forma como expliquei as coisas. Foi uma boa explicação pois tanto serve para a morte de um peixe como para a morte de um passarinho... ou para qualquer outra.
Pedi à educadora para comunicar o sucedido ao resto do pessoal pois a Bonequinha agora está numa fase em que conta tudo o que se passa a toda a gente. Todos tinham que estar preparados para a conversa do dia.

E chegou da escola serena. Eu não lhe falei no assunto. Mas ela nunca se esquece de nada. Quando saiu do carro olhou para o céu e perguntou "Mas onde está a estrela do Gorducho mamã, não estou a ver nada?"

"Agora ainda é de dia, só à noite é que a sua estrela irá brilhar", disse-lhe eu mais uma vez.

E quando chegámos a casa após uma tarde de brincadeira e passeio, avistámos uma estrela no céu. Ela olhou. Eu disse-lhe que provavelmente seria o Gorducho. Mas ela numa voz triste e chorosa disse "eu não gosto que o meu Gorducho tenha ido para o céu. Eu queria ficar com ele mesmo morto na minha casinha"

Enfim, a seguir a isto lá vem a explicação que não podemos ficar com ele morto porque depois cheira mal... ele tem que se transformar numa estrela... enfim, não é fácil... as crianças crescem, as perguntas são cada vez mais... e elas não são parvas!... e minha pequenita fica a pensar nas explicações, e quando algo não lhe faz sentido ela quer saber tudo com mais pormenores... e daqui para a frente os pormenores exigidos vão ser cada vez mais!!... tenho muito que ler e aprender para estar à altura de tanta curiosidade!!

Mas antes de terminar tenho que dizer que de facto a verdade faz sempre todo o sentido. No outro dia um cão ia sendo atropelado quase mesmo à nossa frente. O meu coração gelou e tapei os olhos mas a minha filha viu tudo e começou logo a refilar " então e o dono?? o cão está sózinho? e a trela?"

Felizmente o cão safou-se...bufff

Mas nesse momento ela percebeu verdadeiramente o perigo da estrada. E agora sempre que vê um cão sem trela a passear com o dono, ela diz logo em jeito de sermão "Tens que por a trela, senão o cãozinho vai para a estrada e fica esborrachado".

E ralha com os donos e fica mesmo zangada!!! :-))))

Bem, mas a verdade é que hoje tenho estado trite e deprimida. Não pela morte do peixinho em si (ele coitado já estava a sofrer) mas sim pelo "episódio" em geral e pelas coisas que a minha filha disse de uma forma tão sentida e inocente.

Eu lido muito mal com a morte, acho que deviamos ser eternos... e tenho que fazer um esforço enorme para transmitir tudo com a ligeireza, suavidade e magia necessárias.
Gostava de acreditar nesta conversa das estrelas... confesso que gostava mesmo de acreditar...

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