quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Faz hoje 17 anos...


É verdade, os anos passam, o tempo voa. Faz hoje 17 anos que vim estudar para Lisboa. Faz hoje 17 anos que os meus queridos pais me deixaram na grande cidade e partiram para o Alentejo de coração apertado.

Mas o meu sonho tinha-se concretizado, tinha conseguido entrar para o curso e para a universidade que tanto desejava. Uma das melhores universidades públicas do país onde as vagas se contam pelos dedos e a média exigida é sempre muito elevada. Mas eu consegui. Sempre fui muito boa aluna, o tipo de aluna que vem para casa a chorar se teve BOM Grande + em vez de MUITO BOM, a típica aluna que vem para casa a chorar se tira 4 em vez de 5, a típica aluna que vem para casa a chorar se tira 17 em vez de 18ou 19.

Mas consegui. Consegui uma excelente média e tive umas excelentes provas específicas e de aferição. Muitas horas de estudo, muitas horas de pesquisa e dedicação... mas eu sou assim, quando me dedico a uma coisa é de corpo e alma. Não brinco em serviço.

Sabia o número de vagas disponíveis, sabia que não bastava ser boa, tinha que ser muito boa. E para isso tinha muito que trabalhar.

Eu nem queria imaginar se depois de tanto marrar ficasse sem entrar... o que é que eu ia fazer durante esse ano??? seria um ano perdido, um ano à espera de concorrer novamente e fazer as provas todas outras vez... bufff... que horror!

Mas entrei. No dia em que foram afixadas as colocações fiquei completamente DOIDA! Os estudantes nesse dia andavam todos pela rua, uns tristes outros eufóricos (como EU!). E a pergunta da ordem era "então entraste?, então conseguiste? entraste em qual?"

Eu fiquei delirante. O meu pai ficou super orgulhoso, a minha mãe ficou contente mas muito triste ao mesmo tempo. Por ela eu nunca tinha saido debaixo da sua asa, por ela eu teria optado por uma faculdade mais perto de casa... mas não era isso que eu queria, eu queria ir para aquela faculdade, o meu lugar era entre os bons e não entre os mais ou menos.

Mas hoje que sou mãe compreendo... ver uma filha sair de casa para ir estudar para longe com apenas 18 anos é duro... e nessa altura ainda nem havia telemóveis... era uma preocupação constante.

Então toca de procurar um quarto para ficar e preparar as coisas. Em mim reinava a felicidade, a curiosidade, a ansiedade... era a primeira vez que ia ficar longe dos meus pais, da minha casa, das minhas coisas. Eu nunca tinha dormido fora de casa. O meu irmão acampou e dormiu algumas noites fora mas eu nunca tive essa necessidade... ainda me lembro da minha mãe me dizer "vai passear, vai divertir-te rapariga! quando chegares à minha idade o que é que vais ter para contar?".

Mas eu sempre fui uma pessoa caseira e um pouco solitária. Dedicava-me aos estudos, ao desporto e à música! Eram a trilogia da minha vida. Adorava estar no meu quarto a preparar o meu programa de rádio, a ler as minhas coisas, a sonhar com o meu mundo. É a aquariana que há em mim :-)

E estou sempre a dizer, quem me dera que a minha filha venha a ser uma adolescente como eu fui. Nunca dei problemas. Gostava de me divertir mas sempre com muito juízo (talvez até demais!), sempre tive a cabeça no lugar. Noitadas, drogas, bebedeiras, curtições, nada disso era comigo. O meu lema sempre foi mente sã em corpo são e sempre tive um grande amor próprio.

E foi assim. No dia 5 de Outubro de 1994 os meus pais vieram trazer-me a Lisboa. E lá fiquei eu alojada num quarto. E lá os vi partir. A minha mãe já estava mentalizada, agora era o meu pai que estava mais triste. Acho que o meu pai só sentiu o real peso da separação nesse dia. Mas é assim, o coração das mulheres é mais reactivo, quando os homens ainda andam a voar já as mulheres andam com os pés bem assentes no chão!!

E eu fiquei. Sózinha. Numa casa que não era a minha. Numa cidade que não era a minha. Não conhecia ninguém. Felizmente simpatizei logo com os senhorios. O Sr. Júlio e a D. Edite foram uns verdadeiros companheiros! Deles só tenho a dizer bem. Os meus pais também gostaram muito deles. Na conversa que tiveram descobriram vários pontos em comum, afinidades. Posso dizer que tive imensa sorte! Foi no Pingo Doce que vimos este anúncio afixado, este e milhares deles! Vimos dezenas de quartos... uns eram verdadeiras espeluncas (como é que alguém tem coragem de alugar aquilo?)... mas quando vimos a casa do Sr. Júlio gostámos. E gostámos dele também. Ele nunca tinha alugado quartos na vida. Era uma experiência nova para aquela simpático e adorável casal. Ele bancário e ela enfermeira. Boa gente, educados, cultos e afectuosos.

E lá fui praxada e lá comecei a minha nova vida. Adorei Lisboa, aliás, sempre tive consciência que ia gostar de viver aqui. Nunca morri de amores pela minha cidade Natal, é verdade.

Mas a solidão foi a minha única companhia durante muito tempo. Apesar de tudo sentia-me muito só. Assim que terminavam as aulas cada um dos meus colegas seguia para a sua vida.

E eu ia para a minha. Tinha uma cidade enorme para descobrir. Já conhecia Lisboa mas de forma superficial. E os meus dias eram dedicados aos estudos, à vida académica e ao desporto.

No segundo ano o meu empenho foi tão notório que acabei por ser nomeada Delegada de Turma. Era a representante do meu curso, favala com os professores, ia às reuniões, marcava as frequências juntamente com os outros delegados (era uma trabalheira dos diabos conciliar tantas cadeiras, profs e cursos!)... em suma, era a porta voz do meu curso! E fui nomeada sempre, até ao final da licenciatura :-)

Todos me conheciam mas a verdade é que continuava a sentir-me muito sózinha. Tinha imensas saudades dos meus pais, da minha casa e do meu quarto! Nos fins de semana lá ia eu apanhar o expresso, eram 4 horas e tal de viagem... um verdadeiro suplicio semanal. Uma viagem que de carro leva 2 horas e pouca era feita de expresso no dobro do tempo!... um pesadelo... mas tinha que ser. A saudade apertava.

E há minha espera tinha sempre a minha mãe com aquele sorriso de mãe, aquele sorriso que guardo sempre na minha memória. E à minha espera tinha também o meu programa de rádio que ia para o ar todos os sábados. Fui locutora e realizadora desse programa durante 5 anos e meio! A rádio foi outro prazer da minha vida, ainda hoje me deixa saudades...

E a vida de estudante universitária continuava. Mas continuava a sentir-me só. Muita coisa para estudar, mas também muitas festas para aproveitar! Havia tempo para tudo.

E grande parte dos meus dias eram passados no ginásio pois o desporto sempre foi o meu vício! O ginásio tornou-se uma espécie de segunda casa, uma pequena família, malta porreira que gostavam de um estilo de vida saudável e desportivo (tal como eu).

Mas no terceiro ano surgiu o amor da minha vida e os meus dias passaram a ser cor de rosa! Andava de olho nele. Era do meu curso. O que me chamou a atenção? O seu sorriso meigo e maravilho, os seus olhos grandes e doces como o mel, o seu longo cabelo dourado pelo sol e o seu corpo atlético de surfista. Erradiava saúde e alegria! E era um aluno exemplar e responsável.

Sentia que ele era o tal. Sentia que ele era o homem a quem eu devia entregar o meu coração. E um dia enchi-me de coragem e convidei-o para almoçar. Não tinha nada a perder, costumo dizer que o NÃO é sempre garantido por isso não custa nada tentar!!!

Mas ele aceitou e foi maravilhoso!

A partir desse dia nunca mais nos largámos. Estamos juntos até hoje, já lá vão 15 anos. Somos marido e mulher, casámos, construimos uma família e uma vida a três da qual muito nos orgulhamos.

E assim fiquei por terras lisboetas. Já cá estou há 17 anos e é aqui o meu lugar. Nunca tive vontade de voltar para a minha terra Natal. Gosto de viver aqui, sinto-me em casa. Mas tenho muita pena de ter os meus pais tão longe... posso viver 200 anos e vou ter sempre este desgosto. Mas a vida é assim, feita de opções. Não se pode ter tudo.

E o meu irmão ainda está mais longe. Foi viver e trabalhar para outro país. Estamos todos longe uns dos outros mas somos uma família unida... talvez mais unida do que muitas famílias que estão fisicamente lado a lado.

Por vezes dou por mim a pensar... pelo menos aqui em Lisboa há de tudo um pouco por isso é pouco provável que a minha filha um dia queira ir estudar para longe... gostava que ela ficasse sempre debaixo da minha asa, pois claro!

Mas ela é que sabe. O importante é dar-lhe boas bases para que ela possa um dia voar sózinha em segurança.

Como diz Richard Templar no seu best-seller "100 regras para educar o seu filho": "É quando saem de casa para ir viver independentes que podemos avaliar a maneira como os seus progenitores os educaram. E penso que os pais cujos filhos são capazes de cuidar de si mesmos, de apreciar a vida e de fazer felizes aqueles que os rodeiam, de ser carinhosos e bondosos, e de lutar por aquilo em que acreditam, esses pais são os que conseguiram levar a bom termo o seu trabalho."