terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cicatrizes

Faz hoje 5 anos que perdi os meus gémeos.
Não foram só eles que morreram. Uma parte de mim também morreu.

Foi uma gravidez que me deixou marcas profundas. A partir desse momento nunca mais fui a mesma. A minha visão da vida mudou por completo. A minha maneira de estar na vida mudou por completo. A minha lista de prioridades alterou-se por completo. Os meus sonhos e os meus objectivos alteraram-se por completo. Senti na pele que a vida é de facto muito curta e que de um momento para o outro tudo acaba. Aprendi a dar valor ao que realmente tem valor. Aprendi a enfrentar os problemas da vida com um sorriso nos lábios porque para tudo há uma solução. Só a doença e a morte não têm solução.

Aprendi a tirar o melhor partido das situações menos boas com que a vida nos surpreende. É uma regra de ouro para sermos felizes porque a vida parece estar feita de uma maneira em que nunca estamos 100% felizes mas também nunca estamos 100% na lama.

Ora temos dinheiro mas não temos tempo para usufruir dele, ora temos tempo mas não temos dinheiro, ora temos emprego mas não temos tempo para a família, ora temos tempo para a família mas não temos emprego, ora temos finalmente uns dias de férias e os filhotes resolvem ficar doentes, etc, etc, etc.

Mas a vida é assim. Temos sempre a sensação que falta algo para sermos totalmente felizes e acabamos por não dar o devido valor ao que temos.  E não tenho dúvida de que o nosso maior obstáculo é a nossa cabeça... é contra ela que temos que lutar. A nossa cabeça tem que ser dominada porque tem uma capacidade imensa para nos destruir.

E a vida vai-nos moldando. As alegrias e as tristezas vão-nos tornando pessoas diferentes. Amadurecemos, crescemos, envelhecemos... chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe apenas mudança. Mas nós humanos somos estúpidos porque só percebemos o real valor da vida quando passamos por uma situação limite.

A minha primeira gravidez marcou-me para sempre. Corri risco de vida mas felizmente Deus quis que eu ficasse. Foi uma gravidez horrível... um euro milhões do azar como disse o médico. Eu, uma pessoa super saudável, dona de uma saúde de ferro e de uma energia estonteante vi-me subitamente numa situação aterradora. Uma situação que só acontece 1 em 1000!!... e senti na pele que o mal não acontece só aos outros. Já falei várias vezes neste assunto mas falar faz bem pois é uma forma de exorcizarmos os nossos medos.

O calvário da minha primeira gravidez fez com que eu seja a mãe e a pessoa que sou hoje. Há fantasmas que ficam para sempre e o medo da perda acaba por ser constante. Todos os pais temem perder os filhos e este sentimento ainda está mais presente no coração daqueles que já passaram por experiências traumáticas.

Eu não tenho vergonha de dizer que sou uma mãe galinha, uma mãe protectora e medrosa. SOU. Não sou galinha no sentido de colocar a minha filha numa redoma, isso não! Mas sou galinha porque estou sempre presente. A Rafaela farta-se de passear, farta-se de brincar na rua, sobe às árvores, mexe na terra, enfia-se na água, anda de bicicleta, trotineta, brinca por todo o lado, dou-lhe o máximo apoio para ir sempre mais longe, mas tenho que estar sempre junto dela. Fomento o seu espírito aventureiro, ensino-a a não desistir e a lutar pelo que quer (e nisso ela é mestre pois tem uma personalidade muito forte e é muito senhora das suas vontades!). Mas eu sou uma espécie de anjo da guarda. Costumo dizer que ela quando está comigo está com Deus porque eu não lhe tiro os olhos de cima. Sou a rede de protecção, não a proíbo de nada mas explico-lhe os perigos inerentes a cada acto.
E por vezes, graças à sua teimosia, aprende da pior forma pois acaba por se magoar e diz "Afinal tu tinhas razão mamãzinha!".


Enfim... mas dou por mim a pensar como é que vou reagir quando ela for maior e eu já não possa estar a seu lado para a proteger, para lhe fazer ver as coisas? Vai ser complicado para mim pois eu sou demasiado preocupada com os que amo... mas os filhos crescem... por isso o meu dever, o meu objectivo contínuo é dar-lhe boas bases para que futuramente saiba enfrentar a vida e os perigos.

E eu tenho que controlar a minha cabeça e o meu coração para lidar com os meus medos... senão uma pessoa fica maluca porque quando temos um filho o nosso coração passa a andar sempre fora de nós.

Educar um filho não é nem nunca será uma tarefa fácil. Errar é humano... lidar com os sentimentos não é fácil... lutar contra os nossos medos não é fácil... gerir o conflito entre razão e coração não é fácil. Mas a vida é assim. Cada um de nós tenta ser o melhor pai/mãe que nos é possível ser.

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