quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Monstros reais #1

Quando penso que já não há mais nada neste mundo que me surpreenda, eis que me deparo com mais uma daquelas notícias que me deixam mal disposta, triste e com vontade de me transformar numa super heroína com poderes mágicos para banir a escumalha da face da terra. Há pessoas que deviam estar presas ou internadas mas andam à solta e ainda por cima escrevem livros. O padre evangelista Michael Pearl lançou "To train up a child" um livro onde aconselha os pais a espancarem os filhos. Um livro absolutamente cruel que já fez pelo menos três vítimas nos EUA.
Eu sou contra a violência. Aliás, só aprovo a violência em legítima defesa. Se nos batem é óbvio que nos devemos defender pois essa história de dar a outra face é coisa da Bíblia e não se ajusta ao mundo real.

Mas bater para nos fazermos ouvir ou para impormos a nossa vontade é algo primitivo. Não é um acto digno de um ser humano. Somos dotados de cérebro e de inúmeras formas de comunicação por isso não faz sentido o uso da força para atingirmos o que pretendemos.

Eu não bato em ninguém então porque raio havia de bater na minha filha? porque raio havia de bater no ser que mais amo neste mundo? A violência é a forma mais simples e imediata que muitos pais usam para se fazerem ouvir. A violência é o caminho mais rápido para levar uma criança a obedecer.

Mas eu opto pelo caminho oposto, pelo caminho mais longo e trabalhoso. Opto pelo diálogo. Faço questão de dizer à minha filha que não tenho qualquer tipo de prazer em zangar-me com ela ou de lhe gritar quando começa a pisar o risco. E não tolero má educação, isso nem pensar. Faço questão de lhe explicar e repetir centenas de vezes (se for preciso!) porque é que me zango com ela. Quero que ela perceba e compreenda a razão das coisas. É FÁCIL??? Não, não é.

Mas eu não quero que ela me obedeça por medo, não quero que ela me tema. Quero que ela me respeite e admire e para colher estes frutos tenho que os semear.

Talvez por isso, quando me zango a valer, as minhas palavras acabam por lhe doer mais que qualquer palmada. Ela fica devastada e lavada em lágrimas quando me zango a sério. Agarra-se a mim, enche-me de beijos e desculpas e sussura entre soluços "Mamã, amigas outra vez?"

E o que me faz sair realmente do sério é a falta de educação, isso sim. Isso é motivo para castigo. Felizmente acontece poucas vezes mas quando acontece fica de castigo sentada no tapete do seu quarto para reflectir sobre o que fez. O tapete é um dos seus lugares de brincadeira preferidos porque para se estar de castigo não é preciso ir-se para uma masmorra. O castigo basta-se a si mesmo. Chora baba e ranho e só sai do castigo depois de ter pensado sobre o que fez ou sobre o que disse. E antes de lá sair tem que me explicar porque é que está de castigo. O importante é que ela perceba. Explico-lhe, dou-lhe exemplos, faço-lhe ver as coisas e ela compreende. E é isso que importa, que compreenda e que interiorize o que está bem e o que está mal.

Mas bater-lhe nem pensar. É claro que já lhe dei uma palmadinha no rabo ou que já lhe agarrei a ponta da orelha em jeito de ameaça silênciosa quando em público se lembra de começar a disparatar... nesses casos basta agarrar-lhe a ponta da orelha e sussurrar-lhe umas palavras!!!  

Há quem diga que sou branda e que por vezes devia ser mais dura. Mas este é o meu método, é o meu caminho. É longo, é trabalhoso mas dá resultado.

Também é verdade que desde que sou mãe conheci a varina que há me mim porque, certas vezes, dou por mim aos gritos!!... nunca gostei de gritos e peixeiradas mas agora percebo... as crianças têm a capacidade de nos enlouquecer momentaneamente!! Há dias em que parece que fazem gosto em deixar a cabeça de uma pessoa em água... é verdade!

E por vezes dou por mim a fazer um esforço gigantesco para não lhe dar uma valente palmada porque ela as está mesmo a pedir e eu já estou a ferver! Mas respiro fundo, viro-lhe as costas e digo para ela me chamar quando estiver mais calma. Assim ela acaba por se acalmar, eu evito por-lhe as mãos em cima e também me acalmo e no fim conversamos civilizadamente. Chegamos a uma conclusão e ela percebe. Mas não é fácil, não senhor!

Dá trabalho pois dá! Aliás, antes de ser mãe nunca pensei ter tanta paciência. Mas tem que ser assim porque da minha paciência depende a sua educação e formação.

Mas infelizmente há quem opte pela violência. E o mais grave é que há quem escreva livros sobre a arte da crueldade. O padre evangelista norte-americano Michael Pearl, baseado na tese de que a Bíblia aconselha o uso de chicotes, já provocou a morte de pelo menos três crianças, segundo o The New York Times.

"To Train Up a Child" (em português, "Como educar o seu filho"), defende os açoites às crianças como forma de educação e já alguns pais seguiram esse exemplo, havendo o registo de pelo menos três mortes de crianças.

Aqui fica a notícia divulgada pela TVi 24:

"O polémico Pearl defende, por exemplo, a utilização de uma vara para castigar os corpo das crianças mal comportadas e diz que as mães devem puxar os cabelos dos bebés quando eles mordem o mamilo durante a amamentação.

«Os pais podem experimentar sentimentos que os impeçam de castigar os filhos, mas isso não é o amor de Deus, que criou as crianças e sabe o que é melhor para elas, ordenando aos pais que usem o chicote», escreveu Pearl no seu livro.

O pastor fala ainda das armas de fogo, indicando aos pais que as têm que as deixem em casa, carregadas, para testar as crianças.

«Se elas se aproximarem das armas, devem bater-lhes com a vara», ensina Pearl.

«Para crianças com menos de um ano, os pais devem usar apenas uma vara de salgueiro, entre 25 a 30 centímetros de comprimento e uma polegada de diâmetro, isenta de nós, pois estes podem cortar a pele», explica.

Mas, continua, quando se trata de «agressões» mais frequentes, deve ser utilizado um tubo de plástico, de 0,1 centímetro de diâmetro, para doer, sem marcar seriamente a pele.

Os objectos referidos no livro são muitas vezes chamados de «varinha mágica» pelo autor.

A «varinha» é caracterizada por Pearl como «um bom instrumento de surra, porque é leve demais para causar danos no músculo ou no osso».

Hana, 11 anos, filha adoptiva de Larry Williams e Carri de Sedro-Woolley, de Washington, nos Estados Unidos, foi encontrada morta em casa, no quintal, nua.

O relatório médico indica que a criança morreu de hipotermia e desnutrição, uma vez que os pais a privaram de comer durante dias e obrigaram-na a dormir em armários fora de casa.

Hana apresentava sinais de espancamento com um tubo de plástico de 38 centímetros, como recomenda Pearl no seu polémico livro. Os pais da criança declararam-se inocentes.

Esse tubo, ou a «varinha», também causou a morte de Lydia Schatz, também com 11 anos, adoptada por Kevin e Elizabeth Schatz, da Califórnia.

A criança era sucessivamente espancada pelos pais, parando apenas para rezar. Os pais foram declarados culpados e estão presos.

O pastor evangelista já se veio defender, dizendo que não podem culpar o livro pelo abuso extremo de alguns pais instáveis, achando um absurdo as acusações que lhe são feitas.

Michael Pearl defende que os seus métodos, usados correctamente, podem contribuir para a boa formação e crescimentos saudável das crianças e adolescentes."

E agora pergunto eu. No meio disto tudo quem é mais cruel? O autor, a editora ou os pais que seguem esta mente preversa e acabam por ser iguais ou piores que ele?
E isto não é nada porque se pesquisarmos mais sobre a obra de Michael Pearl até ficamos doentes... só a foto dele arrepia...

Será que Deus consegue ver o que certas pessoas escrevem e fazem em seu nome?

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