sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desabafos


Só quem é mãe consegue alcançar o verdadeiro sentido das palavras que se seguem... só quem tem filhos em instituições de ensino consegue perceber.... e quem, como eu, não tem ajudas por perto, consegue compreender o que uma mãe sente quando tem que deixar um bebé de quatro ou cinco meses num berçário.

Eu tive que deixar a minha querida menina com cinco meses no berçário da escola que ela frequenta ainda hoje. Se me custou??? SIM, muito.... chorei que nem uma Santa Madalena... felizmente a escola proporcionou-me uma semana de integração, ou seja, na última semana da minha licença de maternidade todos os dias ia para o berçário com ela, mas todos os dias reduzia a minha permanência... até ao dia em que tive que a deixar e vir embora. Lembro-me como se fosse hoje. A educadora Cristina olhou para mim e disse-me no seu tom maternal e carinhoso "Pronto, agora a mamã pode ir beber um café, que ela hoje já dorme cá a sesta. Quando ela acordar telefono-lhe". Eu olhei para ela, querendo adiar o inadiável, e disse-lhe "Mas eu não bebo café!".... "Então beba uma água, relaxe, aproveite para descansar um pouco. Fique descansada que ela fica muito bem entregue".

Desci as escadas da escola, caminhei pela rua, senti-me perdida, sem rumo. Senti um vazio horrível. Foram cinco meses consecutivos sempre ao pé da minha piolhinha... estava profundamente satisfeita com a escola que tinha escolhido porque tinha excelentes referencias e foi fruto de uma longa pesquisa... mas o meu coração estava despedaçado. 

Fui para casa. E tanta coisa que eu tinha em casa para fazer! Mas não consegui fazer NADA. Roupa para passar, roupa para lavar, camas para fazer, sopinha para tratar... outras tantas coisas para arrumar... mas não consegui fazer NADA. Estar em casa sem ela era para mim algo de novo. Sentia um silêncio, uma coisa horrível. Sentei-me no sofá, desatei a chorar compulsivamente e coloquei o telemóvel à minha frente à espera que a Cristina me ligasse para eu a ir buscar. Liguei ao meu marido e à minha mãe. Chorei.... chorei....

Quando o telefone tocou, voei até à escola (que felizmente fica mesmo aqui ao pé de casa, ponho-me lá em dois minutos a pé).

Cheguei e agarrei-me a ela como se não a visse há uma eternidade. Que saudade! A Cristina disse-me que ela tinha dormido a sesta e que tudo tinha corrido bem. E eu vá de olhar para ver se ela estava bem... porque no berçário já havia uns pequenitos que estavam a começar a gatinhar e eu via neles uma ameaça à minha pequerrucha de cinco meses. E se a arranham?? e se lhe metem o dedo nos olhos???... e se a mordem??? enfim, até cheguei a ligar à Susana (que é a actual educadora dela e coordenadora) para expor os meus receios. Ela tranquilizou-me. Foi impecável. Hoje sinto-me ridícula quando digo isto mas na altura só me ocorriam coisas horríveis.

E foi assim a semana de integração. Na segunda feira seguinte comecei a trabalhar (nessa altura trabalhava em full time na revista onde estive oito anos ) e quando a deixei já não chorei. Percebi realmente que ficava em boas mãos... mas passava o dia com uma inquietação interior, uma saudade imensa, uma vontade da ir buscar para a esborrachar com beijos.

Até hoje estou muito satisfeita com a escola. Não tenho rigorosamente nada a apontar. Dou por muito bem empregue o dinheiro que pagamos todos os meses. Temos ali uma segunda família e profissionais extremamente competentes. O único aspecto negativo são as doenças que por lá se apanham... que se apanham ali ou em qualquer outra escola privada ou pública.

E quem tem que deixar um bebé de cinco meses num berçário, compreende perfeitamente o que estou a dizer!!! até atingirem a tal imunidade sofrem eles e sofremos nós. O primeiro ano é absolutamente desastroso. É um stress constante para todos. Ela apanhou todos os tipos de viroses, desde gastroenterites, conjuntivites, bronquiolites, otites... eu sei lá!... adoecia ela e em seguida adoecíamos nós. Ela adoecia e eu tinha que faltar ao trabalho. Era o stress da ver doente e o stress de estar a faltar... depois não me podia dar ao luxo de ficar em casa com ela até à sua total recuperação, o que significava ter que a deixar na escola sabendo que ela ainda não estava a 100%.... ou seja, a pobrezinha ainda não tinha saído de uma e já estava a apanhar outro bicho qualquer porque ainda estava em convalescença.... enfim.... o primeiro ano foi muuuuuuuuuito complicado. Chegámos a estar os três bastante doentes aqui em casa... 

Todos me diziam que o primeiro ano é sempre assim e que depois as crianças ficam fortes e blá blá blá... mas isto é fácil de se dizer! de facto ela é uma criança extremamente saudável mas eu preferia que ela não tivesse passado por tantos vírus e bactérias ao longo destes tempos. Ela e nós!! desde que somos pais temos tido de tudo um pouco! 

Como diz o ditado, com o mal dos outros podemos nós! e quem tem o privilégio de ter os filhos nos avós  durante os dois primeiros anos de vida, fala de animo leve de todas estas questões. 

Cheguei a ir trabalhar sentindo-me um monstro, sabendo que devia ficar em casa mais três ou quatro dias até a piolhinha ficar boa por completo... sentia-me culpada cada vez que ela adoecia, culpada sem o ser porque eu tinha que ir trabalhar e não a podia levar comigo! ela tinha mesmo que ficar no berçário... enfim, o conflito interior era permanente e desgastante. E eu também gostava imenso do meu trabalho, tinha ali uma grande equipa, uma excelente revista. 

Mas a crise falou mais alto. Começaram os consecutivos despedimentos colectivos e a minha vida profissional deu uma reviravolta. Nesse momento nem pensei duas vezes, optei de imediato por me dedicar à princesa. Passou a frequentar a escola apenas de manhã e eu passei a ser free lancer com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Actualmente a piolha conquistou a tal imunidade que as pessoas tanto falavam. Raramente adoece e quando adoece fica boa num piscar de olhos. Mas as viroses continuam a frequentar a nossa casa..... ahhh pois!.... não com a frequência e a intensidade dos primeiros tempos... mas continuam :-(

2 comentários:

  1. Compreendo-a PERFEITAMENTE!!!
    Também passei pelo mesmo e não é nada fácil... nada mesmo :(

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  2. Eu felizmente não sei o que isso é. Sempre tive os meus pais e os meus sogros perto e totalmente disponíveis. A minha filha só foi para o colégio com 4 anos e na altura não foi nada fácil para mim nem para os avós. Ela adorou e até lhe fez muito bem, apesar das doenças. No primeiro ano apanhou várias maleitas, é verdade.

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