sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Saber dizer NÃO

Tenho para mim que o mal de muitas pessoas reside no facto de não saberem dizer que não. Dizem sim a tudo no trabalho, dizem sim a tudo no seio familiar, dizem sim a tudo entre amigos e depois queixam-se! queixam-se e andam de cara cinzenta a cuspir palavras desagradáveis porque se sentem esmagadas com tantas obrigações, resultantes dos SINS constantes que foram pronunciando ao longo dos dias, meses, anos.

Tudo isto para dizer que ontem, sem querer, ouvi uma conversa que mexeu comigo. Estava num supermercado à espera da minha vez enquanto uma avó falava cobras e lagartos da sua filha à empregada do estabelecimento. Porque anda de rastos, porque já não tem idade para isto, porque é ela que cria o neto, porque é mais que uma mãe para o neto, porque a filha e o genro têm sempre muito que fazer, porque na sexta feira gostam de fazer um programa a dois e a criança dorme na avó e porque durante o fim de semana precisam de descansar e a criança volta para a avó e blá blá blá.

A conversa não era comigo mas senti vontade de calar aquela avó. Aquilo é conversa que se tenha ali num supermercado para toda a gente ouvir???? Por amor da santa!!!

Sei que há pais que usam e abusam dos avós... sei que há pais que se encostam porque sabem que os avós estão sempre ali ao lado... aliás, sei de casos de verdadeira escravidão!! mas se isto acontece é porque os avós o permitem. Estes avós não sabem dizer NÃO. E estes pais não têm a decência de agir como adultos, não percebem que os avós já criaram os filhos e que agora têm direito a usufruir da vida. Uma coisa é ajudar, outra coisa é substituir os pais.

Eu então estou fora deste mundo. A minha vida é o oposto! Os avós maternos estão longe e os paternos não têm saúde. Por isso quando me perguntam se pretendo ter mais filhos a minha resposta é NÃO porque: não me apetece minimamente engravidar pela terceira vez (já tive a minha dose e não foi pouca!), estou absolutamente satisfeita com a família que construí, prefiro viver bem a três do que mal a quatro ou cinco (tendo em conta que podia engravidar de gémeos outra vez) e tenho a plena consciência dos meus limites porque sei que só posso contar comigo e com o meu marido. Essa história de quem cria um cria dois ou três não faz qualquer sentido para mim. Tudo se cria, é verdade, mas em que condições??? Não estamos a falar de galinhas e de pintos mas sim de seres humanos com necessidades complexas numa conjuntura económica e social complicada. Colocar um filho no mundo é para mim um acto que carece de grande responsabilidade. 

Para além disso, quando não se tem ajudas por perto os casais têm que fazer opções e há coisas que ficam para segundo plano (como por exemplo a carreira e o mestrado) porque não há quem fique com os pintainhos para os pais cumprirem as suas carregadas agendas. E não me venham falar de amas porque eu era incapaz de deixar a minha filha numa ama ou ao cuidado de uma empresa de babysitting.

E mesmo se tivesse os meus pais por perto, tenho a certeza que nunca os iria sobrecarregar porque eles já criaram dois filhos, porque eles já trabalharam bastante e agora merecem saborear a vida com calma. Uma coisa é ajudar a outra é escravizar!

Para além disso, os filhos têm que ser criados pelos pais e não pelos avós, amas ou empregadas. Aos pais é que cabe a dura e extraordinária tarefa de educar e acompanhar os filhos. Contar com uma ajuda é bom e extremamente positivo mas despejar CONSTANTEMENTE os filhos nas mãos de terceiros porque se está cansado, porque se quer ir ao cinema, porque se vai às compras e eles só fazem asneiras, porque se quer estar com uns amigos e os putos estão cheios de sono, porque se quer ir jantar ao restaurante da moda... isso não!

Tudo isto é possível com os filhos atrás, é tudo uma questão de hábito. Não é fácil, não senhora, mas consegue-se. Nós fazemos tudo isto mas sempre a três. É cansativo, pois é, por vezes extenuante mas é assim. E quando a Boneca não pode ir não vamos e ponto final. Ou então vai um e o outro fica com ela. É assim. E também trabalhamos e também precisamos de descansar e também precisamos de momentos nossos. Mas a necessidade aguça o engenho e já temos esquemas para tudo. 

Para além disso, eu costumo dizer que os filhos são uma espécie de vício! quanto mais tempo passamos com eles mais queremos estar com eles, mais habituados ficamos ao seu ritmo frenético, mais a sua energia estonteante se entranha em nós... mas se passamos pouco tempo com eles, perdemos o hábito, perdemos o ritmo e rapidamente ficamos saturados e sem paciência para o corropio constante da criançada.


Em suma, esta avó queixava-se de uma vida de servidão. Por tudo isto falava mal da filha e do genro em plena praça pública. Talvez esta senhora de aspecto débil e franzino tenha que aprender a dizer NÃO para ser uma avó mais feliz, mais saudável e menos amargurada ;-)

Como dizia Isabel Stilwell numa das suas crónicas da Pais & Filhos "Há avós que aceitam uma sobrecarga de netos, que não faz qualquer sentido, e os deixa exaustos, envelhecidos, privados de vida própria. Substitutos de creches ou jardins de infância, constantemente albergue de sextas, sábados e domingos, não são capazes de colocar limites ao uso que os seus filhos lhes dão. Filhos convencidos de que a vida dos pais é deles para administrar como lhes apetece: afinal o que podiam ter de mais importante para fazer?"


4 comentários:

  1. Compartilho da mesma opinião, até porque no meu caso tb só podemos contar connosco! Mas os avós privam da companhia do neto sempre que possível, nessa condição de avós.

    Bom fim de semana

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  2. Concordo plenamente Paulinha! Apesar de saber muito bem DE VEZ EM QUANDO deixar os filhos a dormir nos avós. Os meus ficavam muito pouco com os avós em bebés e agora que estão a crescer DE VEZ EM QUANDO FICAM e tanto eles como os avós gostam da experiência e nós os dois gostamos de uns momentos a dois.
    Mas é verdade que algumas pessoas abusam e quase se esquecem que são pais...Se não for ao fim de semana, quando é que vamos estar com os nossos filhos? E eu adoro estar com eles, mesmo que me façam a cabeça em água e se batam a toda a hora!!

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  3. EXCELENTE post. Sou da mesma opinião.

    Madalena Senna

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  4. É tão verdade, isto que escreves! eu conheço vários casos desses, de "depósito" nos avós, sem saberem, ao certo, se os avós estão efectivamente disponíveis para isso!
    É certo que sabe mesmo bem, de qdo em x, sairmos só os dois, mas o facto de ser só de vez em qdo é que torna especial o momento... eu tenho os meus pais mto perto, como sabes, e bastante disponíveis, mas seria incapaz de abusar ou de deixar lá os miúdos constantemente, seja para o que for!
    Bom fim de semana!
    Bjss a todos!

    PS - de qualquer maneira, era um espectáculo se a Rafaela tivesse um mano! :)))

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