quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

As boas recordações, o passarinho e as aberrações públicas que me chocam...

Lembro-me como se fosse hoje. Quando éramos pequenos, eu e o meu irmão levávamos para casa toda a espécie de bicharada que encontrávamos nos jardins da cidade, até porque tínhamos a sorte de morar mesmo em frente ao maior deles. Um jardim imenso e maravilhoso que nos viu crescer e que hoje perdeu a alma graças ao programa Polis que o transformou numa coisa aberrante. Quem o viu e quem o vê sabe perfeitamente do que estou a falar! Uma obra para lá de medíocre que demonstra um verdadeiro desrespeito pela natureza e pelo património da cidade. O lago maravilhoso cheio de cisnes foi devastado e substituído por banheiras de cimento (que servem agora de baldes do lixo, tantas são as folhas e porcarias que lá vão parar!), os recantos de sonho foram destruídos e as árvores centenárias foram todas arrancadas para dar lugar a um parque de estacionamento público (que está quase sempre vazio!). Uma aberração sem explicação. Com é possível terem transformado um jardim imenso (que qualquer cidade gostaria de ter) numa coisas destas? Sempre que lá vou fico de coração apertado a olhar para tamanha barbaridade e só me apetece insultar quem teve a triste ideia de conceber e aprovar uma obra pública deste género. Alguém teve ter ganho rios de dinheiro com este projeto... mas a população e a cidade só ficaram a perder! E não digo mais nada porque até sinto o estômago a embrulhar-se...

Isto para dizer que, tanto eu como o meu irmão, passávamos a vida a salvar animais mas o trabalho sobrava sempre para a minha mãe! Por aquela casa passaram bichos de conta, caracóis, pardais, pombos, andorinhas, milheirinhas... eu sei lá! Até um morcego bebé lá foi parar (alimentado a conta gotas!). Muitos deles cresciam, seguiam o seu rumo e nós ficávamos com aquela sensação de super heróis. Mas outros morriam e era um desgosto. 

Por isso mesmo, hoje de manhã tive uma sensação de déjà vu brutal quando fui passear a Amélie e dei de caras com este passarinho estendido no meio do caminho. Assim que o agarrei enterrou a cabeça na asa e ficou amalhado no calor da minha mão. Eu só pensava "Estou lixada! Vou ter que te levar para casa e encher de mimos! Mais um bichinho para juntar ao hamster, aos periquitos e à Amélie! Vais ser o nosso pequenino! Quando a Rafaela chegar da escola vai ficar radiante!". E lá fui eu com o passarinho na mão e a raposa mais querida debaixo do braço porque só quer vadiagem e tem que ser arrastada para casa. Cheguei a casa, coloquei-o numa caixinha e corri à arrecadação para ir buscar uma gaiola e um ninho. Quando cheguei já estava de pernas para o ar... tadinho... agarreio-o, ainda lhe consegui dar uma gota de água mas foi-se...

Era apenas um passarinho mas era uma vida. Devolvi-o à natureza. Coloquei-o entre os ramos de um arbusto. E eu a pensar que o ia salvar... e eu já a delirar com a cara de felicidade da Rafaela quando chegasse da escola e visse esta fofura... mas a fofura foi-se. Nunca vai conhecer os encantos da primavera mas fico feliz por lhe ter proporcionado os últimos minutos de aconchego no calor da minha mão...



Não sei se era um pardal... não sou entendida nestas coisas... mas ainda bem que a Rafaela não assistiu a esta cena...

AngelLuzinha

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